Lembro-me
de ter acordado em uma sala escura, estava de pé, mas sem nada embaixo. Estava
flutuando, por um momento pensei que já estava morto, mas por quê? O que tinha
acontecido? Não me lembro de muita coisa, tenho apenas uns flashes na cabeça. Apenas
a vasta lembrança de ir para o hotel acompanhado, mas com quem? Comecei a
pensar, tentando recordar qualquer coisa, mas parecia que tinha perdido uma
parte da minha memória.
Resolvi
pedir ajuda, parecia loucura, afinal não faço idéia onde estou, mas quanto mais
gritava, um forte zunido começou a penetrar nos meus ouvidos, era um som agudo,
fechei os olhos e comecei a me debater, entrei em desespero, cada grito de
socorro e o barulho aumentava mais. Até que desmaiei.
Senti que estava sendo carregado por um
corpo estranho, indaguei, “Quem é você?”, mas ao abrir a minha boca novamente,
o estranho barulho voltou e acertou meu cérebro como uma bala. Resolvi ficar
quieto e ver até onde estava sendo levado. Ao olhar para frente, vi uma luz bem
ao fundo, estava imóvel, parecendo estar me esperando.
Tomei a decisão de tentar ficar de pé
novamente, forcei minhas pernas a se levantarem, mas o esforço foi em vão, até
que uma idéia maluca me veio na cabeça. Vou tentar me comunicar telepaticamente,
pensei comigo, “Se já estou morto mesmo, não custa tentar”, no entanto ao
ponderar aquilo, o corpo imediatamente parou e me olhou. Finalmente pude ver
quem era. Era um rosto familiar, acabou me despertando várias lembranças e uma
forte dor de cabeça, diversos rostos familiares, porém antes que pudesse
reconhecer realmente quem era, a luz do fundo aumentou bruscamente e ofuscou
toda visão. Pensei ter ficado cego.
O corpo que me levava, sumiu no ar.
Aquela luz branca parece ter consumido todo seu corpo. Ao cair, senti que o
chão havia aparecido e que na minha frente havia uma cadeira. Uma voz serene
falou em meu ouvido, “Por favor, sente-se”, parecia à fala de uma criança. Com
medo de falar alguma coisa, resolvi obedecer, apenas acenei com a cabeça, sem
saber de onde vinha, apenas fui para a cadeira e sentei.
Aquela cadeira era totalmente
desconfortável, suas pernas não mostravam segurança, qualquer movimento mais
brusco e ela poderia quebrar facilmente. Ao me sentar um ponteiro gigante
apareceu em meus pés e todo branco na volta se transformou em uma enorme sala,
com vários relógios na parede. A voz falou novamente, “Agora podemos começar”.
A sala começou a girar lentamente, parecendo o ponteiro dos segundos, me senti
em uma sala de interrogatório, com vários relógios na parede, alguns parados,
outros girando no sentido anti-horário.
- Eu sei que você tem várias dúvidas,
muitas perguntas. Posso afirmar que ao longo do tempo você obterá as respostas,
mas primeiro precisa entender o que está acontecendo, a razão de tudo isso.
Contudo não posso lhe dizer diretamente, só posso responder as suas perguntas,
por isso seja preciso. Seu tempo está passando.
- Eu morri? Foi a primeira coisa que me
veio a cabeça. Senti que a sala parou por alguns segundos e girou rapidamente,
até voltar ao seu ritmo inicial.
- Sua pergunta é simples, porém
complexa, mas não, você não está morto. Nesse exato momento você está no seu
hotel, com a sua companheira e futura mãe do seu filho.
- Quê?!? Como assim? Mãe? Filho? A sala
voltou a girar em um ritmo frenético, quase me derrubando da cadeira. Os
relógios na parede começam a girar no mesmo ritmo. Alguns chegaram a cair no
chão, mas nada aconteceu.
- Se você quer as respostas, por favor
faça as perguntas certas. A sala gira conforme as batidas do seu coração.
Formule-as direito e responderei com clareza.
A sala foi voltando ao seu ritmo normal
à medida que fui me acalmando, mas mesmo assim, milhares de perguntas surgiam,
não conseguia formular nada, queria perguntar tudo de uma vez, mas se entrasse
em desespero a sala giraria novamente. O ritmo aumentou por alguns segundos,
mas voltou ao normal.
- Que lugar exatamente é esse? E o que
são todos esses relógios? O que eles representam? E qual a razão pra tudo isso?
- Você faz muitas perguntas, mas tudo
bem. Esse lugar nada mais é que a sua cabeça. Sim, você está dentro da sua
consciência. Você tem a mente perturbada. Você está correndo contra o tempo Sr.
Mason ou Steve como prefere. Seu passado o condena, porém a vida está dando
mais uma chance. Resolva tudo, antes que seja tarde demais. Voltaremos a nos
encontrar. Por enquanto é só, você vai acordar na sua cama ao lado de sua
futura esposa. Escute com atenção, se você ousar fugir novamente ou tentar
fazer alguma coisa pra evitar esse bebê, nossa conversa será diferente. Em
breve conversaremos. Agora vá.
Sem dar chance à outra pergunta, a sala
rodou rapidamente, senti que o chão desabava e que o ponteiro sumira. Os
relógios na parede começavam a despertar, o zunido voltou e agora estava em
queda livre, rodando.
Acordei suado, ao lado de Karoline, que
ainda dormia. Levantei assustado, sem saber o que exatamente tinha acontecido,
olhei para o meu relógio para ver que horas eram. Exatamente 3 horas da manhã,
não tinha passado nem um minuto. “Será um pesadelo?”, pensei comigo, “Isso
realmente aconteceu?”. Resolvi tomar um banho para relaxar. Dessa vez a água
funcionava, a luz ligava, tudo tinha voltado ao normal. Tomei um banho de 15
minutos e fui deitar. Para minha surpresa, Karol estava acordada, em frente à
janela. Ao ver aquilo, pensei estar voltando no tempo. Aproximei-me e vi que
escorriam lágrimas no seu rosto. Ela observava os prédios vizinhos e com
aqueles lindos olhos, ainda brilhando, refletindo a luz da noite, ela me
abraçou e não falou nada, continuou chorando.
Sem entender muito bem o motivo e meio
receoso em perguntar, resolvi saber o por que. “Porque choras? Foi alguma coisa
que fiz ou falei?”. Ela continuou sem responder, achei melhor não falar mais
nada. Apenas levei de volta a cama e passamos a noite inteira quietos,
conseguia ouvir somente o seu choro.
Quando acordei, Karol não estava mais
ao meu lado, apenas um bilhete fora deixado ao lado da minha cabeceira. Dava
para notar pelo papel, que foi escrito sobre lágrimas, pois estava um pouco
borrado. Sua letra era linda, mas saiu toda tremida. Naquele pequeno pedaço de
papel dizia: “Sr. Mason, obrigado pela ótima noite, só tenho que agradecer.
Desculpe pelo que aconteceu ontem, mas acho melhor a gente parar por aqui antes
que seja tarde. Estou me demitindo, mas quero que saiba que isso é para o nosso
bem, e que o problema não é você e sim eu. Prefiro que passamos um tempo sem
contato, vou para casa de parentes. Espero que um dia a gente se encontre.
Karol”.
Ao terminar de ler aquelas palavras,
senti um frio na nuca e a mesma voz ecoando em meus ouvidos, “Lembre-se da
nossa conversa, não fuga, vá atrás dela e não deixe que termine assim. As vezes
temos que fazer um sacrifício em benefício de outros, no caso aqui é a vida de
vocês está em suas mãos.”, respondi, “Mas por onde começo? Não faço idéia os
parentes dela moram, nem tenho a certeza que ela foi pra lá”. “Sabe acho que
tudo isso é perda de tempo, acabei bebendo demais e estou começando a imaginar
coisas, vou ao médico agora mesmo e ver o que está acontecendo comigo. Essa
Karol só pode ser louca, mais uma na minha vida”. Tomei a coragem de ignorar
tudo e resolvi sair do quarto. Rasguei o papel em vários pedaços e atirei pela
janela. Estava decido em deixar tudo para trás e ignorar o aviso.
Ao me encaminhar para a porta, um forte
vento abriu a janela e uma carta entrou quarto adentro. Minhas entranhas se
entroalharam, as portas começaram a bater forte e a janela fechou com tanta
força que quase quebrou. A carta caiu no meu pé, abaixei-me para pegar. Abri e
vi que tinha algo mais além de um pedaço de papel. Continha um laço vermelho,
com um perfume familiar, uma foto. No pequeno papel havia apenas uma frase:
“VOCÊ VAI SE ARREPENDER POR ISSO”.
As portas pararam de bater e abriram
nas minhas costas. Ao olhar me deparei com o antigo dono do hotel, que estava
dando gargalhadas, seus dentes amarelos, rangiam e ficavam batendo, só sentia
raiva e ao mesmo tempo medo. Tudo escureceu, as luzes começaram a piscar
freneticamente, comecei a andar em sua direção, um movimento involuntário, suas
risadas começaram a aumentar, aquele zunido voltou, minha cabeça começava a
girar, parecia que ia explodir. Ele disse “Você vai morrer...”. Logo após isso,
as portas pararam, as luzes também, minha visão escureceu. Não ouvia mais o
zunido nem as risadas. Instantes depois tudo voltou ao normal, pelo menos eu
achava que tinha voltado se não fosse um detalhe.
O velho estava atirado no chão, todo
contorcido, com uma expressão assustadora no rosto. Três corpos flutuavam em
sua volta.
Começaram a bater em minha porta, os
corpos sumiram, apenas o do velho continuara ali, fiquei sem reação. “Sr.
Mason, está por ai? Está tudo bem?”, era apenas uma das camareiras. “Claro que
está, porque não estaria? Agora por favor, me deixe em paz que já estou saindo.”
Senti que estava se distanciando. Estava suando muito e não sabia exatamente o
que fazer, até que o corpo começa a evaporar na minha frente, com muitas
risadas ao meu redor. A voz me falou: “Isto é apenas o começo.”, a porta de
frente se abre sozinha e tudo parece normal.

Nenhum comentário:
Postar um comentário